Mistificação literária

Na verdade, Malba Tahan não foi apenas um pseudônimo de Julio Cesar de Mello e Souza. O escritor e professor carioca inventou um personagem que parecesse real, uma pessoa que houvesse existido de fato, uma mistificação literária. Ele estudou a cultura e a língua árabes, para que a biografia e as obras do Malba Tahan fossem convincentes em estilo, linguagem e ambientação. Em data não especificada, Julio Cesar teria procurado o jornalista Irineu Marinho, diretor de periódico A Noite, para lhe propor uma ideia: surpreender o Brasil com a mistificação literária de um escritor árabe, chamado Malba Tahan, para publicar contos orientais e educativos. Irineu Marinho teria lido dois ou três contos do professor Mello e Souza e, aprovando a ideia, recomendou que fossem publicados na primeira página de seu jornal, precedidos de uma biografia do famoso escritor Malba Tahan, ou melhor, de Ali Yezzid Izz-edin Ibn-Salin Malba Tahan. O jornal divulgava que os “contos do original escriptor anglo-árabe Hank Malba Tahan” eram especialmente traduzidos e adaptados por “um de nossos collaboradores”. Mello e Souza e Irineu Marinho jamais revelaram a pessoa alguma o segredo da mistificação da qual foram aliados e co-responsáveis. Em 1924 iniciaram-se os contos árabes no jornal A Noite, sendo o primeiro deles intitulado o “O Juiz”. A publicação do primeiro conto deu início ao personagem Malba Tahan no imaginário brasileiro. Em 1925, o primeiro livro do escritor intitulou-se Contos de Malba Tahan. Na segunda edição da mesma obra, ele acrescentou a “Biographia de Malba Tahan”, com a ilustração de um árabe de turbante e longas barbas. Para que a mistificação literária ficasse completa, restava ainda criar um tradutor já que Malba Tahan escrevia hipoteticamente em árabe. Júlio Cesar inventou, então, Breno Alencar Bianco, tradutor fictício que passou a figurar em seus livros a partir da edição de O Homem que Calculava. Tudo levava a crer que Malba Tahan tivesse existido e, até hoje, muita gente ainda acredita que o escritor árabe existiu de fato. A partir de 1924, primeiro no Jornal A Noite e, depois, em centenas de periódicos, os contos de Malba Tahan espalharam-se por todo Brasil. A mistificação literária criada pelo professor carioca tornou-se uma realidade na imaginação de milhares de brasileiros.

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