Infância em Queluz
1895-1906

A casa: a escola

Julio Cesar é filho de João de Deus de Mello e Souza (08/03/1863 – 09/03/1911) e de Carolina Carlos de Toledo (04/11/1866 – 01/06/1925), conhecida como Dona Sinhá. João de Deus nasceu no Rio de Janeiro, mas resolveu fundar na cidade de Queluz um pequeno colégio interno para filhos de fazendeiros. Carolina chegou a Queluz vinda de Serra Negra, ao norte do Estado de São Paulo, com cerca de 17 anos, para assumir a regência da escola primária da cidade. Em Queluz, localizada às margens do Rio Paraíba, no Estado de São Paulo, junto à divisa com o Estado do Rio de Janeiro, João de Deus e Carolina se conheceram. Com o declínio econômico das fazendas de café, o colégio de João de Deus teve que fechar as portas. O casal, com três filhos, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde João de Deus conseguiu um emprego no Ministério da Justiça. No entanto, as dificuldades encontradas na capital fizeram com que retornassem a Queluz, onde Carolina voltou a atuar como professora. Julio Cesar nasceu no Rio de Janeiro e teve quatro irmãos mais velhos e quatro mais novos. Os mais velhos chamavam-se Maria Antonieta, Laura, João Batista e Julieta. Os mais novos chamavam-se Nelson, Rubens, José Carlos e Olga. Sete, dos nove irmãos, seguramente influenciados pela vocação da mãe, Dona Sinhá, tornaram-se excelentes professores. Eles eram conhecidos na cidade do Rio de Janeiro como os “Mello e Souza”.

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Julio Cesar, no centro. João Batista, de preto

Brincando com sapos

Em Queluz, a escola pública dirigida por Dona Sinhá funcionava na sala de estar de sua casa, com suas quatro classes, todas dirigidas por ela. O menino Julinho e a irmã Julieta auxiliavam o trabalho da escola, distribuindo cadernos, recolhendo lições, apagando a lousa e, ainda, balançando o berço onde dormia Olga, a irmã caçula. Julio Cesar fez seu curso primário na escolinha dirigida por sua própria mãe, em Queluz. Aliás, deve-se à mãe e professora Carolina Carlos o talento de seus filhos para o magistério. Segundo diferentes relatos, o menino Julinho, como era chamado, era uma criança de muita vitalidade e imaginação. Inventivo e travesso, seu brinquedo predileto eram os sapos do quintal e da beira do Rio Paraíba. Aos sapos mais bojudos dava nomes solenes de “Monsenhor” e “Ilustríssimo Senhor”. Pequenino, brincava de dar aulas a uma turma de sapos e de conduzi-los com uma varinha. A lembrança da alegria com os sapos de sua infância tornou-se célebre. Quando adulto, muitos amigos e admiradores passaram a presenteá-lo com réplicas de sapos em louça, madeira, ferro, jade e cristal. Certa vez, perguntaram ao ilustre professor Mello e Souza, porque ele gostava tanto dos sapos. Omitindo sua diversão de criança, respondeu: -“Gosto dos sapos porque são discretos e bondosos. Por de trás daquela feia carranca, daquele corpo frio e repelente, são criaturas verdadeiramente úteis e inteligentes”.

Revista ERRE e Salomão IV

O menino Julinho era, de fato, um grande criador de novidades! Em 1908, com apenas 12 anos, criou sua primeira obra literária: A Revista ERRE! Nela, ele exercia as funções de diretor, redator e ilustrador. Ao lado do título da revista que inventou, apresentou seu primeiro pseudônimo: “ERRE Redactor Salomão IV”. Depois, avisava: “Erre – crítico, illustrado e mensal”. Tratava-se de um engenhoso caderninho, com folhas dobradas, costuradas à mão, escrito com caneta tinteiro e ilustrado pelo próprio autor com desenhos a mão livre, coloridos com lápis de cor ou guache. As histórias eram organizadas em capítulos e privilegiavam o suspense, a guerra ou ainda a ciência dos animais e do corpo humano. Rubens e Nelson, seus irmãos, eram frequentemente citados. Entre muitos relatos, encontram-se as histórias que intitulou: “O medo”, “O esqueleto”, “As aventuras de Jasilo”, “Fiel”, “Assobrável”, “O assalto” e “O phantasma”. A revista ERRE durou de janeiro de 1907 a novembro de 1908. Estes anos de infância em Queluz foram descritos por João Batista de Mello e Souza no livro Meninos de Queluz, que recebeu o Prêmio Joaquim Nabuco pela Academia Brasileira de Letras, em 1948.

02-1908-Revista ERRE
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Introdução

No Rio de Janeiro: estudo e trabalho – 1906-1925

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