Rio de Janeiro: estudo e trabalho
1906-1925

Acordaram-me de madrugada

Para ser aprovado no concurso de seleção do Colégio Militar do Rio de Janeiro, Julio Cesar teve aulas particulares com seu irmão João Batista. Segundo relato do próprio João Batista, Julinho era muito inquieto, não se concentrava nos estudos. Corria para o quintal, toda vez que ouvia o grasnar dos gansos, imaginando que pudessem estar atacando seus sapos. Contudo foi aprovado, começando a estudar como aluno interno no Colégio Militar em 1906, onde permaneceu apenas por três anos, porque seu pai não tinha condições de pagar a mensalidade da instituição. Obtendo boa nota no exame de admissão do Colégio Pedro II de São Cristóvão, uma das mais importantes escolas da capital da República, Julio Cesar conseguiu gratuidade parcial para seus estudos. Em 1909, ele começou sua nova vida como aluno interno do Colégio Pedro II, escola que lhe deixou muitas recordações, sendo a do dia 18 de maio de 1910 a mais bonita. Naquela noite de um final de semana, ele foi acordado pelo diretor Augusto José de Araújo Lima, que havia saído de casa para mostrar, aos dois únicos alunos internos que permaneciam no colégio, a passagem no céu do Cometa de Halley. Julio Cesar revelou-se eternamente grato ao diretor por esse gesto, a ponto de escrever e publicar muitos anos depois o livro “Acordaram-me de madrugada”, onde revelou a atenção do diretor e as lembranças de sua antiga escola.

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Redações a venda

Uma das lembranças que Julio Cesar tinha como aluno interno do Colégio Pedro II relaciona-se às aulas do professor de português José Julio da Silva Ramos – membro da Academia Brasileira de Letras. Ele passava redações para os alunos e quem não fazia o dever ficava impedido de voltar para casa no final de semana. Julio Cesar começou, então, a escrever redações para os colegas preguiçosos e a ganhar alguns tostões. Redações a venda! – esse foi um bom negócio! Com a remuneração pelo serviço, podia ir de bonde para casa, pagar a passagem dos colegas e comprar o chocolate Bering, o de sua predileção. O sucesso das redações adquiridas pelos colegas da escola o ajudou em sua dificuldade financeira e certamente revelou ao jovem Julio Cesar o caminho como escritor a seguir.

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Aulas e cursos

Em 1911, seu pai, João de Deus, faleceu e sua mãe Carolina voltou a residir no Rio de Janeiro. Nessa nova fase da vida, a professora Carolina não hesitou em começar um novo trabalho. Fundou um externato, que se chamou Colégio São Paulo, no Posto 6, em Copacabana, onde, como na escola de Queluz, seus filhos a ajudavam, dessa vez como professores. Em outubro de 1912, Julio Cesar conseguiu seu primeiro trabalho formal. Foi nomeado pelo Ministro de Estado da Justiça e Negócios Interiores Auxiliar da Biblioteca Nacional. No ano seguinte, iniciava o curso superior de Engenharia, na antiga Escola Politécnica da Universidade do Brasil. Enquanto estudava no curso superior de Engenharia Civil, trabalhava na Biblioteca Nacional e dava aulas na escola de sua mãe em Copacabana, Julio Cesar era aluno do curso noturno da Escola Normal, depois chamado Instituto de Educação. Anos mais tarde, em 1921, formado, assumiu na Escola Normal o cargo de Professor Substituto do docente Euclides Roxo, de quem havia sido aluno. Dois anos depois, foi professor na mesma escola por concurso público, onde lecionou durante 40 anos Matemática, Geografia, Literatura Infantil, Folclore e a Arte de Ler e Contar Histórias, tornando-se Professor Catedrático. Nos anos trinta, depois da morte de sua mãe, Julio Cesar também ministrou aulas no Colégio Mello e Souza, fundado por suas irmãs Julieta e Olga. Em meio a tantas aulas e estudantes, o professor encantou-se por uma aluna do Instituto de Educação – Nair Marques da Costa, com quem se casou em 26 de março de 1925.

Golpe perfeito!

Despois das experiências juvenis como escritor, o início da carreia literária de Malba Tahan teria sido em 1918, no Jornal O Imparcial. Nesse periódico, Julio Cesar assinou seus primeiros contos com o pseudônimo: R.V. Slady ou R.S Slady. Em antigo relato, Malba Tahan afirmou ter criado o pseudônimo em razão da indiferença do editor do jornal, que deixava seus contos esquecidos sob um peso de papel. Persistente e criativo, Julio Cesar retirou os contos da mesa do editor e os reapresentou dizendo tratarem-se de narrativas escritas por um importante autor americano: R.V. Slady! Foi um golpe perfeito! O editor acreditou na fantasiosa invenção e, vislumbrando algum sucesso de vendas com o inusitado autor, publicou os contos!

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